Entre o livro e a bola


Jovens que têm o sonho de se tornar jogadores de futebol enfrentam o dilema do conflito entre o esporte e a educação

O mundo do futebol está longe de ser essa vida de luxo e glamour, que algumas pessoas têm a ilusão. A imensa maioria vive uma realidade difícil, fruto de salários muito baixos. Assim, sem a possibilidade de diploma ao abrir mão dos estudos pela carreira no esporte, não veem perspectiva a não ser seguir a profissão de jogador.

Dia desses, nas redes sociais, o craque Alex fez uma postagem simplesmente genial. Com o perdão da redundância (Alex e genialidade). Ídolo por onde passou, e atualmente trabalhando como comentarista dos canais ESPN, relatou, em sua conta no Instagram, uma situação vivenciada por ele enquanto assistia ao jogo de futsal de seu filho Felipe, de apenas 6 anos de idade. Segue trecho:
“Um pai conversando com o outro disse que queria trocar o filho de time porque queria que o filho dele fosse campeão. Campeão de que “cara pálida”? Campeão de sub-7, (sub-)9, (sub-)11...um outro me perguntou o que eu achava que o filho tinha que fazer. Respondi: “divertir-se com a bola e estudar”. O pai me retrucou assim: “não! Quero saber de movimentação, posicionamento, passe...”. Sentei após esses papos filosóficos e fiquei vendo as expressões das crianças. Meninos de 6 anos de idade. Vivendo um turbilhão de sentimentos durante 15 minutos. Pais sonhando com estádios cheios para os filhos. Mal compreendendo o longo percurso que existe pela frente. Meu conselho aos pais de qualquer mini atleta de qualquer modalidade. 1º, divirtam-se na sua modalidade escolhida. 2º estudem. Quanto mais estudar, mais aberta estará a cabeça para novas ideias, mais aberto estará o canal de absorção daquilo que os treinadores e educadores irão passar na infância e adolescência.”
Ahhh, Alex. Divino com sempre. Este texto é tão bonito quanto o gol de letra que você fez com a camisa do Cruzeiro no jogo de ida da final da Copa do Brasil de 2003 contra o Flamengo, em pleno Maracanã lotado. Muito obrigado! É uma pena que esse pensamento dele ainda seja tão raro dentro do mundo do futebol. Que bom seria se, pelo menos, um quarto das pessoas envolvidas com o esporte pensasse como ele: diretores, treinadores, pais, atletas, e os próprios dirigentes.

A triste realidade do futebol brasileiro
Primeiramente, vale destacar uma pesquisa feita pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), entidade máxima do futebol no país. 82,4% dos jogadores profissionais registrados pelo órgão ganhavam salário inferior a R$1.000,00. Isso mesmo! Você não leu errado. Não, não são 8,24%, não. Esqueça Neymar & cia. Esqueça o jogo a que você assistiu na tela da Rede Globo, na tarde do último domingo. Saia dessa bolha. Menos de 4% recebem salário superior a R$5.000,00.


Tabela de salários dos 28.203 atletas que jogavam em clubes brasileiros, segundo a CBF (Confederação Brasileiro de Futebol)

Isso sem falar que 671 clubes de futebol profissional no Brasil não têm calendário para jogar o ano todo. O time contrata em dezembro, treina em janeiro, disputa o Campeonato Estadual (de sua respectiva região) de fevereiro a abril, e, uma vez eliminado, fecha as portas. Dispensa todo mundo porque não tem mais jogo a partir de maio. No ano passado, dos 28 mil atletas profissionais registrados pela CBF, mais de 11 mil ficaram sem contrato no decorrer do ano. Taxa de desemprego de 59%. Da próxima vez que seu tio disser que “jogador de futebol é tudo vagabundo”, já sabe o que responder.
A partir disso, é primordial entender o que leva a esse cenário, no mínimo, trágico: educação e futebol não se misturam no país. Sem sombra de dúvidas, isso explica bastante a falta de alternativas e consequente insistência dos atletas profissionais no esporte, mesmo com salários baixíssimos. O treinador do infantil do Boavista Sport Club e do juvenil do Projeto Boavista Sérgio Anglada afirma que conciliar os estudos com o futebol é extremamente complicado.

Sérgio Anglada (branco) passando instruções a seus jogadores, em partida válida pelo Campeonato Carioca Infantil (sub-15)

- Para você conciliar um bom estudo, para você ter uma boa base de estudo, é muito difícil. Ou você tem uma condição financeira muito boa, e aí consegue estudar numa escola de ponta e ter um acordo, mas é muito raro.

É possível conciliar o futebol e os estudos?
Atleta dos juniores do Clube de Regatas Vasco da Gama (CRVG), Calebe Dias corrobora a enorme dificuldade em conciliar os dois lados, sobretudo quando defendia o juvenil do Bangu Atlético Clube.

Calebe Dias (à direita), em treino pelos juniores do Vasco da Gama

- (Quando jogava no Bangu) Ano passado eu treinava em Itaguaí e ia pro Ícaro, no Recreio, todo dia (Colégio Ícaro). Você sempre chega atrasado demais na aula, perde muita matéria, e, também, fica muito cansado. Não dá para estudar direito por conta da rotina. É cansativo demais, você acorda cedo, chega em casa bem tarde por causa da escola. É por isso que muita gente deixa de estudar.
Aponta ainda para a compreensão apresentada pelo Colégio Ícaro, onde estudava, com relação à correria do dia a dia no esporte.
- O bom do Ícaro é que eles entendem isso. A maioria das pessoas que estuda lá é atleta.
No entanto, o Colégio Ícaro Unidade Recreio não é tido como referência do ponto de vista da qualidade do ensino. A 6351ª colocação no Ranking do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) evidencia isso. Com média de 516,87, fica a somente 1 ponto acima da média geral do país, que envolve rede pública e privada. E fica quase 40 pontos abaixo da média geral da rede privada. Conforme destacado por Sérgio, anteriormente, o maior problema é o nível dos estudos.
O treinador das categorias de base do Boavista acredita que há, sim, uma saída, que passa, em grande parte, pelas mãos da organização dos clubes.
- De repente, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) tornar obrigatório que um clube tenha, dentro de seu ambiente de trabalho, uma escola. E essa escola tem que ser boa, ou seja ela ter que ficar bem classificada no Enem. Seria uma boa saída. Ou até uma lei, mesmo, que determine isso. Os clubes serem responsáveis pelos estudos de seus atletas também. O clube ter uma estrutura que possa possibilitar a seus atletas o acesso aos estudos, não só Ensino Básico, mas, também, até o Superior.
De acordo com ele, é fundamental que essa obrigatoriedade seja regulamentada, ou pela CBF, ou pela própria Constituição Federal brasileira. Bate, novamente, na tecla da necessidade de uma boa qualidade de ensino.
- E esse colégio ter, obrigatoriamente, que ser bom. Não apenas ter o colégio lá para falar que tem. Por exemplo, seria interessante ter que estar bem classificado no Enem.
Por fim, Sérgio é mais crítico ao apontar ainda os estudos como “tabu” no mundo do futebol em geral.
- No futebol, ninguém quer estudar. Todo mundo só quer trabalhar, e trabalhar. Então, acaba que ninguém estuda, ninguém evolui.

O modelo norte-americano
O estudante atleta Luan Lamas passou pelas categorias de base do Clube de Regatas do Flamengo e hoje estuda e joga futebol na High School Saint Benedict’s Prep, em Nova Jersey, nos Estados Unidos. Ele conta que já sofreu bastante com a complicada tarefa de juntar o futebol e a educação.
- No Brasil, é, praticamente, impossível conciliar o estudo de alto nível com o futebol de alto nível. Quanto mais velho, o nível de exigência em ambos aumenta, e, para render no nível esperado, temos que escolher um dos dois. Por isso, vemos muitos que não concluem os estudos, ou concluem, mas de maneira vaga.
Luan embarcou em busca de seu sonho, no início do ano. Além dos problemas sociais brasileiros, a insegurança enfrentada pelo jogador de futebol profissional aqui no país foi o que mais pesou em sua decisão.


Luan vestindo a camisa da Saint Benedict’s Prep

- Eu decidi vir jogar nos Estados Unidos, porque, além de, no Brasil, não ter segurança alguma, você tem um contrato profissional que não garante que realmente conseguirá sobreviver do esporte. Aqui eu consigo conciliar mais fácil os estudos (com o futebol), já que é somente assim que consigo jogar. Então, se eu não der certo como jogador, tenho a segurança de um futuro.
O jovem se tornou um, entre os 413 atletas da agência Next Level Sports, estudando em escolas e universidades norte-americanas. Ele se destacou após chamar a atenção do atual técnico de sua escola, em dezembro do último ano. Fundada em 2008, a empresa atua na área de programas esportivos e educacionais, com especialização nos programas vinculados ao esporte universitário nos Estados Unidos. Vale ressaltar que o número de empresas voltadas para esse setor está aumentando constantemente no Brasil todo.
Segundo o diretor de futebol da agência, Bruno Viana, o suporte inclui avaliação esportiva, preparação e inscrição para os exames, além de traduções e filmagens.
- A gente faz aqui a preparação no futebol e no inglês. Para eles conseguirem as propostas de bolsas, nós fazemos jogos filmados, que a gente consegue enviar para os treinadores americanos.
Com relação ao crescimento do número de jovens rumando às terras norte-americanas, Bruno reforça a harmonia entre o lado esportivo e o lado acadêmico.
- É uma forma de manter vivo o sonho de quase todos os brasileiros, de jogar futebol profissionalmente, sem abandonar os estudos. Na verdade, você apresentar um diploma de uma faculdade americana vale muito. O inglês é essencial para ingressar no mercado de trabalho. Sem falar na estrutura sensacional das faculdades americanas, e na experiência de conhecer novas culturas, que vai ser crucial para a formação do jovem.
Quanto ao custo das universidades nos Estados Unidos, o diretor executivo da empresa, Danilo Miller, pensa que, no final das contas, sai até mais barato.
- Olha, levando em conta as bolsas oferecidas aos atletas, o custo da faculdade fica parecido com o das (universidades) particulares brasileiras. Aqui no Brasil, você pode ter os gastos com cursinho de inglês, com gasolina, com comida, com internet, entre outras coisas, que você não teria lá, por exemplo.



Atletas da Next Level escutam à fala dos treinadores

É papel dos clubes e das federações de futebol trabalhar mais no caminho de fornecer alternativas aos atletas, seja melhorando a qualidade de vida do jogador de futebol profissional, seja fornecendo alternativas em outras áreas a partir dos estudos. Pensar um pouco menos em lucro. Enxergar o jogador de futebol não como mercadoria, mas sim como um ser humano.
Enfim, é fundamental, como o craque Alex disse, brilhantemente, sempre dar muito valor à educação. Diretores, treinadores, pais, atletas, nunca se esqueçam disso. Antes de tudo, priorizem a construção do jovem como cidadão. O futebol é o sonho de quase todas as crianças, e, por isso, já passou da hora de ser tratado como coisa séria, como se faz nos Estados Unidos. Esporte e educação devem, sempre, andar lado a lado.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Obrigado, Sneijder

Giro pelos Amistosos Internacionais do dia 10/9

Moukandjo se aposenta do futebol internacional